Os episódios do programa Linha Direta Justiça, da TV Globo, reacenderam os holofotes sobre um dos personagens mais interessantes da crônica policial brasileira, o detetive particular Bechara Jalkh. Hoje dono de um dos mais requisitados escritórios de investigação do Rio de Janeiro, Jalkh está de volta à cena do crime como um dos colaboradores do programa, que até o fim do ano vai recontar nove dos mais polêmicos casos policiais do país. Jalkh foi decisivo em dois deles: o caso Van-Lou, apresentado na estréia do Linha Direta Justiça, e o caso Carlinhos, ainda inédito. Entre tantas histórias de mortes, subornos e crimes sob encomenda, o caso mais rumoroso no qual o detetive se meteu foi o desaparecimento de Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos, em 1973. O garoto de 10 anos foi retirado de dentro da própria casa. O resgate foi pedido, mas até hoje o menino não apareceu. Sua foto com cabelos lisos e aloirados estampou páginas e páginas de jornais e revistas de todo o país e virou ícone de uma época.

 

A versão polêmica defendida por Bechara Jalkh é chocante. Segundo suas investigações, Carlinhos foi seqüestrado a mando do pai, João Mello da Costa. O homem, de acordo com o detetive, estava numa situação financeira delicada e pretendia usar o dinheiro do resgate para colocar as contas em dia. Para isso, mobilizou o país na tentativa de amealhar o valor pedido pelos supostos seqüestradores, cerca de 100 mil cruzeiros. As pessoas que queriam ajudar faziam depósitos em uma conta bancária aberta para este fim. No último levantamento divulgado, a conta recebeu três vezes o valor exigido. No episódio que o Linha Direta Justiça levará ao ar, a polêmica versão do detetive será apresentada. "Espero que com o programa Carlinhos apareça e todo mundo conheça a história real", diz o detetive. Jalkh é conhecido desde a década de 50, quando começou sua trajetória de investigador. Gozou de uma fase de celebridade nos anos 70, quando passou a investigar, contratado pelo jornal O Globo, casos rumorosos não elucidados pela polícia. Sua estréia no ramo dos crimes famosos aconteceu antes, em 1957, com a solução do primeiro seqüestro registrado no Brasil. O menino Sérgio Haziot, na ocasião com 4 anos, foi levado da escola e o resgate, pago em jóias e dinheiro, deixado dentro de uma caixa de sapato alguns dias depois. Serginho foi abandonado com vida num casebre localizado no afastado bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Após sete meses de investigação, a polícia deu o episódio por encerrado. Só então Jalkh entrou em cena.

 

Com uma centena de pistas na mão, o detetive fechou uma lista de cinco suspeitos. Levantou a vida de todos eles e em menos de dez dias elucidou o caso. A microcámera Minox A, de fabricação alemã, foi a principal aliada de Jalkh. De campana em frente à casa do suspeito, o investigador o seguiu até uma parada de ônibus. Com a pequena máquina em punho fez uma seqüência de 14 chapas em preto e branco. Júlio de Carvalho foi identificado pelas testemunhas como o seqüestrador. A solução do seqüestro deu visibilidade ao Sherlock brasileiro. Até o caso Serginho, ele se ocupava de caçar os maus pagadores. "Naquele tempo as fraudes eram mais simples e vigiar alguém era bem mais fácil. Hoje é difícil até fazer uma campana. Você ou é incomodado pela polícia ou assaltado por bandidos", diz.

 

O detetive está com 70 anos. Cabelos pintados, silhueta robusta, ele não pára de trabalhar. Trocou o escritório antigo no Centro do Rio por um moderno conjunto de salas num luxuoso edifício na Barra da Tijuca. O antigo endereço abriga uma espécie de almoxarifado, com um arsenal de equipamentos usados nas investigações feitas por sua equipe de 50 auxiliares. São gravadores, câmeras e microfones de variados tamanhos e formatos. Hoje, Jalkh dedica a maior parte de seu tempo à chamada investigação empresarial. Para esclarecer um caso, cobra de acordo com o tempo e o tamanho da equipe que terá de mobilizar. O preço oscila entre o mínimo de R$ 50 mil e pode chegar a R$ 250 mil, quando a investigação demanda seis meses de trabalho. Dinheiro, na verdade, não é o combustível que move Bechara Jalkh. Como bom detetive romântico, ele é fascinado pela aventura de desvendar crimes.